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O Fenômeno Trigueirinho

by Estrázulas, Márcia de Oliveira, MD

Abstract (Summary)
A presente pesquisa teve como objetivo estudar “Figueira”, uma comunidade fechada, onde residem aproximadamente trezentas pessoas. A principal meta dessa instituição é ser uma escola de formação e instrução espiritual. “Figueira” localiza-se nas áreas rural e urbana da cidade de Carmo da Cachoeira, Estado de Minas Gerais. Foi fundada em 1987 pelo ex-cineasta do período Cinema Novo, José Hipólito Trigueirinho Netto, mais conhecido por Trigueirinho. Ele escreveu dezenas de livros com profecias do fim do mundo e sobre o resgate da terra com ajuda de extraterrestres. A grande predição de Trigueirinho trata da operação resgate da raça humana, que salvará o seu grupo do fim do mundo. Para os membros da comunidade serem resgatáveis precisam mudar o comportamento, o que implica sujeitar-se a uma purificação até chegar à santidade, à perfeição moral do ser humano. A possibilidade de resgate é um incentivo à mudança de padrão de personalidade. A finalidade é torná-los humildes, sem liberdade de escolha, sem livre-arbítrio para acatar ordens e funções alheias à natureza deles, assim podendo atender aos objetivos coletivos de “Figueira”. Trigueirinho reuniu seguidores. As relações dele com seus guiados estão estreitamente ligadas as suas qualidades proféticas. Grupos de pessoas internas e externas de “Figueira” cumprem suas normas, seguem regras quotidianas e trabalham em atividades gratuitas e voluntárias. A fim de tornar os seres humanos que transitam por “Figueira” resgatáveis há também redes de serviço no Brasil e no mundo. O perfil desses colaboradores assemelha-se ao dos estigmatizados, divergentes, outsiders, liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados, minorias, artistas, etc. Com o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a comunidade “Figueira”, o referencial teórico e metodológico utilizado é o interacionismo simbólico. Este estudo sobre o mundo dos atores sociais, denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes de “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais fornecer uma versão sociológica do “eu” (self) em interação neste ambiente. Enfocamos o mundo do ator social não-internado, isto é, os hóspedes e/ou visitantes itinerantes que se hospedam em “Figueira”. Apresentamo-nos como colaboradores e ficamos hospedados. Colocamos-nos no próprio espaço das interações para observar participativamente como a integração faz a vida social naquele espaço. Procuramos nos integrar à vida cotidiana e não chamar a atenção. Não pudemos usar gravadores, filmadoras nem fotografar. Estes equipamentos são proibidos no local. Tampouco foram feitos questionários. Não pesquisamos as características macrossociológicas. Não levamos em conta o tempo e a história. Procuramos examinar as ações e relações impessoais. Foram seis observações participantes no campo da pesquisa. O estudo foi feito buscando compreender os atores sociais denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem temporariamente e que, ao interagirem com os residentes ou internos, sejam auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição hierárquica. Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas, regras e tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho, interferem no “eu” (self) ou personalidade deles. Buscamos, também na obra de Goffman, trazer à luz a relevância sociológica das pesquisas das instituições totais, porque condicionam os atores sociais. Regras e normas estipulam, modelam, determinam o comportamento e o que devem pensar coletivamente em virtude de pertencerem ou não àquele grupo específico. Nossa hipótese é que “Figueira” possa ser classificada, parcialmente, como uma instituição total por possuir muitas características semelhantes a esse fenômeno. O mais importante é a percepção da sua influência sobre o “eu” (self), sobre o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos que estão ligados a ela direta ou indiretamente. Palavras-chaves: Instituição total; Interação face a face; Interacionismo simbólico.
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Advisor:Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

School:Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

School Location:Brazil

Source Type:Master's Thesis

Embargo Type:Entire Document

End Date:04/20/2011

Keywords:INSTITUIÇÃO TOTAL; INTERAÇÃO FACE À FACE; INTERACIONISMO SIMBÓLICO

ISBN:978-85-63229-06-9

Date of Publication:04/27/2007

Document Text (Pages 1-10)

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO – MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO
SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Porto Alegre
2007


Page 2

MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO
SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Dissertação apresentada como requisito
parcial para a obtenção do grau de Mestre em
Ciências Sociais, pelo Programa de Mestrado
em Ciências Sociais, área de concentração
“Organizações e Sociedade”, da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Orientador: Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

Porto Alegre
2007


Page 3

MÁRCIA DE OLIVEIRA ESTRÁZULAS

A COMUNIDADE ESPIRITUAL “FIGUEIRA”: A INFLUÊNCIA DE TRIGUEIRINHO
SOBRE O “EU” (SELF) DE SEUS SEGUIDORES

Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre em Ciências Sociais, pelo Programa de Mestrado em Ciências Sociais, área
de concentração “Organizações e Sociedade”, da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Aprovada em: ________ de ____________ de __________.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________
Orientador: Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

_________________________________________
Prof. Dr. Airton Luiz Jungblut – PUCRS

_________________________________________
Prof. Dr. José Rogério Lopes – UNISINOS

Porto Alegre
2007


Page 4

Dedico esta dissertação aos meus pais, Daniel e
Eny, aos quais devo tudo, aos quais amo
profundamente, e a meu sobrinho e afilhado,
Marcelo, na esperança de despertar seu interesse
pela pesquisa.


Page 5

AGRADECIMENTOS

Ao Prof. Dr. Roberto Ramos, professor do Doutorado da Faculdade de
Comunicação Social - PUCRS (Famecos-PUCRS), que me recomendou ao
Mestrado de Ciências Sociais – PUCRS;
À Profª. Dra. Merli Leal Silva, professora coordenadora do Curso de
Publicidade e Propaganda da Universidade Metodista – IPA, da Escola Superior de
Propaganda e Marketing (ESPM) e do PGCOM-PUCRS, que me incentivou a fazer o
mestrado e me indicou ao PGCS-PUCRS;
Ao Prof. Me. Eduardo Pedro Corsetti, professor de Ciências Políticas da
UFRGS, que me recomendou ao PGCS;
Ao Prof. Dr. Glênio Nicola Povoas, professor da Famecos, pela cópia do filme
de Trigueirinho “Bahia de todos os Santos” (1960) e pelas cópias da revista
“Anhembi” de crítica de cinema editada pela USP;
Ao Prof. Dr. Hélio R.S. Silva, professor convidado do PGCS, por ter
despertado em mim a admiração por Erving Goffman e pelo interacionismo
simbólico, além de suas ricas orientações extra-oficiais;
Ao Prof. Dr. João Luís Medeiros, ex-professor convidado do PGCS, pelo
incentivo, consideração e orientações;
Ao Prof. Dr. Ricardo Mariano, professor permanente do PGCS, excelente
ouvidor, mediador e coordenador;
Ao Prof. Dr. Édson Gastaldo, professor do PGCS–UNISINOS, pelas
orientações e por seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca, mesmo
sem termos nos conhecido pessoalmente;


Page 6

Agradeço ao ex-colega, ex-vice reitor da UNISC, Me. Marcos Moura Batista
dos Santos, atual Coordenador do Departamento de Antropologia da UNISC, por
seu parecer sobre as alterações requeridas pela Banca;
Agradeço ao ex-colega, Me. João Paulo Cunha, professor de política da
graduação da UFRGS, por seu parecer das alterações sugeridas pela Banca;
À professora Dra. Mª Suzana Arrosa Soares, professora do PGCS-UFRGS,
pelo seu parecer e consultoria em relação as alterações sugeridas pela Banca;
Ao Prof. Me. Celso Dias, professor da FACCAT, pela orientação providencial
e apoio emocional;
À Profª. Me. Ivone Bengochea, professora da Faculdade São Judas Tadeu,
por sua ajuda metodológica e didática na apresentação oral;
Ao Prof. Dr. José Rogério Lopes, professor do PGCS-UNISINOS, pela
disposição em contribuir, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente até o
momento da Banca. Ele é um mestre que não só transmite conhecimento, mas
ensina pelo próprio exemplo. Esta é a verdadeira maestria, uma vocação que me reencantou
pelo ofício do educador;
Agradeço ao Professor Dr. Léo Peixoto Rodrigues, pela sua re-orientação em
relação as alterações sugeridas pela Banca;
Ao tempo, o melhor dos mestres, senhor da razão e da justiça;
AO MEU MESTRE, MESTRE DOS MESTRES, MESTRE DOS ANJOS E DOS
HOMENS.


Page 7

A escolha do Mestre
Um mestre guiado pelo 'ego' atua de maneira
mental: retém informações, dá ordens, exige, testa,
escolhe por você, aprisiona, quer que você dependa
dele, impõe, pressiona, exclui, dá importância ao
status, insiste na obediência, afirma ser autoridade
máxima, busca reconhecimento pessoal.
Um mestre guiado pelo altruísmo: ensina sem
reservas, sugere, orienta, incentiva, deixa que você
faça suas escolhas, confere poder, quer que você seja
independente, respeita, apóia, inclui, está disponível
para todos, incentiva o crescimento pessoal.


Page 8

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Axiomas que definem a teoria do interacionismo simbólico ....................72
Quadro 2 - Axiomas sociológicos ..............................................................................73
Quadro 3 - Categorias...............................................................................................97
Quadro 4 - Categorias de análise dos ritos da instituição .........................................98
Quadro 5 - Categorias de análise dos ritos da interação dimensionados como
elementos convergentes .......................................................................114


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RESUMO

A presente pesquisa teve como objetivo estudar “Figueira”, uma comunidade
fechada, onde residem aproximadamente trezentas pessoas. A principal meta dessa
instituição é ser uma escola de formação e instrução espiritual. “Figueira” localiza-se
nas áreas rural e urbana da cidade de Carmo da Cachoeira, Estado de Minas
Gerais. Foi fundada em 1987 pelo ex-cineasta do período Cinema Novo, José
Hipólito Trigueirinho Netto, mais conhecido por Trigueirinho. Ele escreveu dezenas
de livros com profecias do fim do mundo e sobre o resgate da terra com ajuda de
extraterrestres. A grande predição de Trigueirinho trata da operação resgate da raça
humana, que salvará o seu grupo do fim do mundo. Para os membros da
comunidade serem resgatáveis precisam mudar o comportamento, o que implica
sujeitar-se a uma purificação até chegar à santidade, à perfeição moral do ser
humano. A possibilidade de resgate é um incentivo à mudança de padrão de
personalidade. A finalidade é torná-los humildes, sem liberdade de escolha, sem
livre-arbítrio para acatar ordens e funções alheias à natureza deles, assim podendo
atender aos objetivos coletivos de “Figueira”. Trigueirinho reuniu seguidores. As
relações dele com seus guiados estão estreitamente ligadas as suas qualidades
proféticas. Grupos de pessoas internas e externas de “Figueira” cumprem suas
normas, seguem regras quotidianas e trabalham em atividades gratuitas e
voluntárias. A fim de tornar os seres humanos que transitam por “Figueira”
resgatáveis há também redes de serviço no Brasil e no mundo. O perfil desses
colaboradores assemelha-se ao dos estigmatizados, divergentes, outsiders,
liminares, retraídos, marginais, deslocados, rebeldes, perdidos, desenraizados,
minorias, artistas, etc.
Com o objetivo de contextualizar, compreender e explicar a comunidade
“Figueira”, o referencial teórico e metodológico utilizado é o interacionismo simbólico.
Este estudo sobre o mundo dos atores sociais, denominados hóspedes e/ou
visitantes itinerantes de “Figueira”, tem como um dos seus interesses principais
fornecer uma versão sociológica do “eu” (self) em interação neste ambiente.
Enfocamos o mundo do ator social não-internado, isto é, os hóspedes e/ou visitantes
itinerantes que se hospedam em “Figueira”. Apresentamo-nos como colaboradores e
ficamos hospedados. Colocamos-nos no próprio espaço das interações para
observar participativamente como a integração faz a vida social naquele espaço.
Procuramos nos integrar à vida cotidiana e não chamar a atenção. Não pudemos
usar gravadores, filmadoras nem fotografar. Estes equipamentos são proibidos no
local. Tampouco foram feitos questionários. Não pesquisamos as características
macrossociológicas. Não levamos em conta o tempo e a história. Procuramos
examinar as ações e relações impessoais. Foram seis observações participantes no
campo da pesquisa. O estudo foi feito buscando compreender os atores sociais
denominados hóspedes e/ou visitantes itinerantes que permanecem
temporariamente e que, ao interagirem com os residentes ou internos, sejam
auxiliares ou coordenadores, entram em conflito em função da sujeição hierárquica.
Isto gera um clima de tensão permanente, pois as disciplinas, normas, regras e
tarefas impostas pelo grupo de “Figueira”, liderado por Trigueirinho, interferem no


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“eu” (self) ou personalidade deles. Buscamos, também na obra de Goffman, trazer à
luz a relevância sociológica das pesquisas das instituições totais, porque
condicionam os atores sociais. Regras e normas estipulam, modelam, determinam o
comportamento e o que devem pensar coletivamente em virtude de pertencerem ou
não àquele grupo específico. Nossa hipótese é que “Figueira” possa ser classificada,
parcialmente, como uma instituição total por possuir muitas características
semelhantes a esse fenômeno. O mais importante é a percepção da sua influência
sobre o “eu” (self), sobre o comportamento, o pensamento e até os sentimentos dos
que estão ligados a ela direta ou indiretamente.
Palavras-chaves: Instituição total; Interação face a face; Interacionismo simbólico.

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